Quarta-feira, Maio 01, 2013

Mulheres ordenadas diáconos não é assunto tabú

Photo:DPA

Sopram ventos de mudança na Igreja Católica... 
O arcebispo de Friburgo, D. Robert Zollitsch, presidente da Conferência Episcopal alemã, defendeu a possibilidade de ordenação de mulheres como diáconos, podendo assim presidir a alguns sacramentos como batismos ou casamentos, além de outros serviços nas comunidades cristãs.
A ideia foi formulada no passado domingo, no final de uma reunião de quatro dias, destinada a discutir possíveis reformas na Igreja.
A conferência, a primeiro da género, contou com a participação de 300 especialistas católicos que foram convidados a propor reformas. Os comentários de Zollitsch ecoaram apelos que ao longo de mais de um ano foram feitos pelo Comité Central dos Católicos alemães no sentido de que seja permitido que as mulheres sejam ordenadas diáconos. Zollitsch afirmou que este assunto já não era um 'tabu', acrescentando que a Igreja Católica só poderia recuperar credibilidade e força comprometendo-se com reformas.
Outra proposta que saiu da conferência vai no sentido de alargar aos divorciados que voltaram a casar o direito de participarem nos conselhos paroquiais, assim como de poderem comungar. "É importante para mim que, sem pôr em causa a santidade do casamento, os homens e as mulheres sejam levados a sério dentro da igreja, se sintam respeitados e em casa", disse Zollitsch.
Actualmente, as reformas não passam de ideias ou propostas. Mas ainda que a sua eventual implementação venha a ter um longo caminho pela frente, elas são um sinal para muitos de que a mudança está a caminho. "Eu nunca experimentei um processo de desenvolvimento da estratégia tão transparente quanto este", disse Thomas Berg, da Leadership Academy Baden-Württemberg, que participou da conferência.
Referindo-se a esta mesma notícia, o jornal francês La Vie recorda que, ao mesmo tempo que decorria a conferência na Alemanha, o Vaticano divulgou uma nota em que desmente um abrandamento da posição oficial acerca dos divorciados recasados.
Fonte Religionline

Quarta-feira, Fevereiro 27, 2013

MISSA BREVIS de JOÃO GIL por CANTATE | Pater Noster


Quaresma necessária, acolhida e oferecida

Caríssimos irmãos a caminho da Páscoa:

1.Começamos esta Quaresma particularmente necessitados dela, por nós e por todos, na Igreja e na sociedade que integramos. Na sociedade portuguesa, antes de mais, onde dificuldades persistentes como que reduziram a cinzas muitas viabilidades que pareciam seguras e muitas previsões que se criam certas. Com maior ou menor inadvertência nossa, com maior ou menor inadvertência alheia, o resultado não foi o esperado e ainda há muito a resolver no âmbito particular e público, para que os inegáveis esforços de quem pode e deve e a notável persistência de quem não se resigna deem o resultado pretendido. Lá chegaremos, decerto, se formos todos a chegar, com justiça e solidariedade reforçadas.

E, no entanto, perdura o sentimento de que não se trata de algo episódico, nem que episodicamente se resolva. Entre más notícias e outras mais esperançosas, poderíamos cair numa relativa indiferença, que apenas se aguentasse porque, ao fim e ao cabo, alguma entidade nos seguraria em casos extremos, a raiar a penúria. Entretanto, quem pudesse partiria e outros ficariam, vendo a marcha da história passar ao lado, muito ao lado.

Não é justo este sentimento, nem faz jus a muito trabalho de quem não cruza os braços. Mas é ainda assim um sentimento que aflora em comentários recorrentes, na praça e nos media, qual negativismo de raiz, que desmotiva à partida. Ora, quando falamos de realidades assim, indicamos uma “crise” mais profunda do que meramente económica ou política que fosse. Estamos a falar de humanidade, estamos a falar de nós, onde mal nos sondamos e certamente sofremos.

A Quaresma é do calendário cristão e aos cristãos primeiramente interessa e incumbe. Lembrando ao vivo os quarenta anos do Povo de Deus no deserto, em duríssima libertação que só poucos alcançaram, lembrando ainda mais os quarenta dias de Jesus, no deserto em que venceu todas as tentações principais, é oportunidade maior para fazermos nossa a sua vitória sobre quanto nos afasta de Deus, dos outros e do melhor de nós mesmos.

Os exercícios quaresmais são a obra e o fruto duma fé verdadeira. Oração, esmola e jejum, na designação tradicional, podem traduzir-se por exercício espiritual de filiação autêntica, aproximação concreta das necessidades alheias e domínio de apetites vários que nos distraem do essencial. Conjugam-se aliás e muito bem, porque quem procura antes de mais o reino de Deus e a sua justiça, compreende melhor o que deve aos outros e consequentemente partilha do que tem e do que poupa.
Não precisamos de grandes cogitações para concluir da oportunidade redobrada de Quaresmas sérias. Os discípulos de Jesus Cristo admiram-lhe a plena liberdade sobre si próprio, percorrendo a estreita senda que, nele mesmo, Deus abria ao mundo. Estreita senda, que a sua Ressurreição transformou em viabilidade garantida para quem a queira percorrer, no mesmo Espírito e com a sua graça. Se olharmos em redor, para outras possibilidades que porventura nos apresentem, continuaremos a responder com as palavras de Pedro, apesar de tudo e até apesar de nós: «A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!» (Jo 6, 68).

Irmãos caríssimos, diocesanos do Porto: Acolhamos de coração entregue as palavras de Paulo, no trecho que ouvimos: «Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. […] Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação!».

2.Porque é de acolher que efetivamente se trata. Aquele sentimento pesado e difuso, atrás referido, que tanto desmotiva socialmente, pode igualmente expandir-se na vida eclesial que levamos. Tal não deve acontecer de modo algum, porque os discípulos de Cristo hão de ser, especialmente agora, sinais vivos de esperança certa, nos mais diversos ambientes e setores em que a coexistência decorra. Assim o concluímos por nós, mas sobretudo o ganhamos de Cristo e do que nos oferece.

Leva-nos este ponto a uma consideração maior e mais exigente. Leva-nos ao que propriamente se chama conversão e quase rendição à graça e à justiça de Cristo, que só elas nos recriam e habilitam para o que importa sermos, para Deus e para o mundo.

Algumas décadas de otimismo apressado tentaram-nos a considerar mais “horizontalmente” as coisas, o que acabou por nos desencantar de nós mesmos, como pretendeu desencantar o mundo. Tudo estaria ao nosso alcance, dizia-se, mas nem sempre se atingiram novos patamares de humanidade livre e solidária - e muito pelo contrário, nalguns casos mais gritantes. De facto, temos de nos ver de mais alto para nos abarcarmos a todos.

Ao invés de tal horizontalismo, Jesus, de pés bem assentes na terra que foi sua, apresentou-se inteiramente “vertical”, em si mesmo abrindo tanto a terra ao céu como o céu à terra. Lembremos, por exemplo, como se apresentou segundo o antigo sonho do patriarca Jacob: «Em verdade, em verdade vos digo: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo por meio do Filho do Homem» (Jo 1, 51).

Por meio d’ Ele, e nunca doutro modo. Os discípulos de Cristo, que verdadeiramente o queiram ser, sabem-se resgatados dum imenso peso, que só Ele suportou. Há cativeiros de alma que nem conseguimos esclarecer, quanto mais quebrar…Oiçamos de novo e guardemos melhor as palavras de Paulo: «A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus».

Reparemos que a iniciativa é divina, desvendando-nos o próprio modo de ser e agir de Deus. É Deus Pai que nos oferece em Cristo a reconciliação que por nós não atingiríamos nunca, como a não conseguiríamos agora. É essa a deslumbrante justiça de Deus, como se nos devesse o que gratuitamente nos oferece. Adianta-se no perdão, quase substituindo o ofensor. E tal acontece porque, em Deus, a justiça tem outra raiz, que se chama propriamente “amor”.

O Papa Bento XVI, a quem ficamos devedores de oito anos de luminoso pontificado, escolheu para a sua primeira encíclica o título “Deus é amor”, plenamente acertando com a revelação cristã. Na sua última mensagem quaresmal, diz-nos agora, entre muitas outras coisas oportunas: «O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor […], está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo. Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência de sermos amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus» (Mensagem do Papa para a Quaresma de 2013. Crer na caridade suscita caridade, nº 1).

Retiremos deste trecho duas consequências maiores, a nós referentes, como Igreja de Cristo, e ainda a nós mesmos, como Igreja no mundo e para o mundo, na nossa sociedade e circunstância:

Primeiramente, caríssimos irmãos e condiocesanos, retomemo-nos diante de Deus como permanentes devedores dum resgate que não mereceríamos. É surpreendente deveras que todos os que mais tentaram corresponder ao amor de Deus – de Paulo de Tarso a Francisco de Assis ou a Teresa de Calcutá – sentissem tanto a desproporção absoluta entre o dom de Deus e a capacidade humana de se retribuir inteira… Por nós, não podemos nem queremos considerar-nos outra coisa senão pobres pecadores, constantemente carecidos do perdão de Deus. Seremos até a única comunidade humana que, ao reunir-se, começa por se confessar pecadora, diante de Deus e dos homens, «por pensamentos e palavras, atos e omissões», e insistindo cada um «por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa».

Esta a verdade de que partimos nós, condição indispensável e assumida para acolhermos a verdade maior da misericórdia divina. Juntando uma e outra, continuamos a ser - como já antigamente se dizia - «a santa Igreja dos pecadores».Dos pecadores que assim nos confessamos e da santidade divina que nos é oferecida, pela mediação eclesial que Cristo não dispensa. Como outrora mandou aos discípulos que distribuíssem o pão com que só Ele alimentava o povo, como os mandou perpetuar a eucaristia em sua memória, como lhes confiou o serviço do perdão e da paz… E como nos envia todos a todos, caríssimos irmãos e irmãs, para que chegue a cada um a vida divina que só assim se expande.

Nada sucede por nós, mas porque em nós atua o amor divino, que só “merecemos” porque a ele nos rendemos, sem a mínima presunção da nossa parte. E o próprio Jesus Cristo o esclareceu na conclusiva parábola do fariseu e do cobrador de impostos, quando foram ao templo para orar. O primeiro, mais propriamente para afirmar a sua suposta impecabilidade, ali de pé e gabando-se de cumprir o preceituário completo. O segundo, nem levantava os olhos do chão e só conseguia repetir: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador». Sabemos a conclusão da parábola, como Cristo a tirou: «Este último voltou justificado para casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado» (cf. Lc 18, 9-14).

Mas, se a humildade religiosa é a primeira consequência a reter, a humildade diante dos outros é a segunda e igualmente necessária. Aquele fariseu cheio de si e da sua suposta grandeza, no próprio orgulho com que se apresentava diante de Deus, transportava um profundo desprezo pelos seus semelhantes. Pois assim mesmo dizia: «Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros…». Assim blasfemava ele, mas assim não blasfemaremos nós, atribuindo-nos uma impecabilidade que só a Deus pertence. Como o próprio Jesus o afirmou, para não restarem dúvidas: «Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc 10, 18).

Em suma, caríssimos irmãos: Acolhamos esta Quaresma como oportunidade concreta de libertação de raiz. Por nós, não somos melhores do que outros, mas queremos substituir qualquer auto-convencimento pela conversão sem reservas à misericórdia divina.

3.Só assim ficaremos aptos para servirmos a sociedade que integramos, com disponibilidade oferecida e reforçada. Quem se sabe recuperado pela graça de Cristo, confessa um Deus que não desiste de nenhuma das suas criaturas e mantém constantemente a vontade criadora que subjaz a toda a existência.

Sobretudo por isso, estamos com todos os outros nas inevitáveis fronteiras da justiça, da solidariedade e da paz. É ainda Bento XVI a dizer-nos: «Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele» (Mensagem, nº 2).

Nas nossas comunidades cristãs, certamente, e por elas no espaço em redor. Mas também nas escolas, nos hospitais, nas empresas, na sociedade em geral, estaremos com todos e para todos, com as competências que tivermos ou ganharmos, iguais entre iguais; e como “sal da terra”, que não perde a força que Deus sempre garante, para que tudo alcance melhor gosto e sobretudo não se corrompa e degrade.

Porque é magnífica a declaração mas tremenda a advertência que Jesus Cristo nos faz: «Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens» (Mt 5, 13). Lembremos a advertência, mas apliquemo-nos na declaração. E que aqueles que connosco não desistem de resolver todas as crises, das famílias ao Estado, da economia à sociedade, da escola à cultura, possam confirmar que, ali mesmo onde está um discípulo de Cristo, não há desistência prévia, não há pessimismo paralisante, não há cansaço insuperável. - Ofereçamos esta exercitação quaresmal de crentes como incentivo nacional de esperança!

(Ouvido o Conselho Presbiteral, continuaremos a entregar a renúncia quaresmal que fizermos ao Fundo Social Diocesano, que a aplicará a várias necessidades, sobretudo no campo da salvaguarda e promoção da vida em todas as suas fases, da conceção à velhice. Desde a Quaresma de 2012 até ao presente, o Fundo Social Diocesano distribuiu 239 605 euros, designadamente através da Sociedade de São Vicente de Paulo, a Cáritas Diocesana, a Obra Diocesana de Promoção Social, a Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina e a Vida Norte.)

+ Manuel Clemente
Sé do Porto, Quarta Feira de Cinzas, 13 de fevereiro de 2013

Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso"

 
Foram sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso". Passou de polémica em polémica: 
 
•crise com o Islão depois do seu discurso de Ratisbona, onde evocou a violência religiosa;
•deformação das suas palavras sobre a Sida durante a primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial;
 
•vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por ele enfrentada;
 
•o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre  (o Papa revogou as excomunhões) se transformou numa
reprovação mundial contra Bento XVI, porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas da Shoah feitos por um deles;
 
•incompreensões e dificuldades de pôr em ação o seu desejo de transparência quanto às finanças do Vaticano;
 
•traição de uma parte do seu grupo mais próximo no caso Vatileaks, com o seu mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...
 
Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi poupado.

Às violentas provações físicas do pontificado de João Paulo II, ao atentado e ao mal de Parkinson, parecem corresponder as provações morais de rara violência desta litania de contradições sofrida por Bento XVI.
 
Ao renunciar, o Papa eclipsa-se. À própria imagem do seu pontificado.
Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2013

Quaresma necessária, acolhida e oferecida

Caríssimos irmãos a caminho da Páscoa:

1.Começamos esta Quaresma particularmente necessitados dela, por nós e por todos, na Igreja e na sociedade que integramos. Na sociedade portuguesa, antes de mais, onde dificuldades persistentes como que reduziram a cinzas muitas viabilidades que pareciam seguras e muitas previsões que se criam certas. Com maior ou menor inadvertência nossa, com maior ou menor inadvertência alheia, o resultado não foi o esperado e ainda há muito a resolver no âmbito particular e público, para que os inegáveis esforços de quem pode e deve e a notável persistência de quem não se resigna deem o resultado pretendido. Lá chegaremos, decerto, se formos todos a chegar, com justiça e solidariedade reforçadas.

E, no entanto, perdura o sentimento de que não se trata de algo episódico, nem que episodicamente se resolva. Entre más notícias e outras mais esperançosas, poderíamos cair numa relativa indiferença, que apenas se aguentasse porque, ao fim e ao cabo, alguma entidade nos seguraria em casos extremos, a raiar a penúria. Entretanto, quem pudesse partiria e outros ficariam, vendo a marcha da história passar ao lado, muito ao lado.

Não é justo este sentimento, nem faz jus a muito trabalho de quem não cruza os braços. Mas é ainda assim um sentimento que aflora em comentários recorrentes, na praça e nos media, qual negativismo de raiz, que desmotiva à partida. Ora, quando falamos de realidades assim, indicamos uma “crise” mais profunda do que meramente económica ou política que fosse. Estamos a falar de humanidade, estamos a falar de nós, onde mal nos sondamos e certamente sofremos.

A Quaresma é do calendário cristão e aos cristãos primeiramente interessa e incumbe. Lembrando ao vivo os quarenta anos do Povo de Deus no deserto, em duríssima libertação que só poucos alcançaram, lembrando ainda mais os quarenta dias de Jesus, no deserto em que venceu todas as tentações principais, é oportunidade maior para fazermos nossa a sua vitória sobre quanto nos afasta de Deus, dos outros e do melhor de nós mesmos.

Os exercícios quaresmais são a obra e o fruto duma fé verdadeira. Oração, esmola e jejum, na designação tradicional, podem traduzir-se por exercício espiritual de filiação autêntica, aproximação concreta das necessidades alheias e domínio de apetites vários que nos distraem do essencial. Conjugam-se aliás e muito bem, porque quem procura antes de mais o reino de Deus e a sua justiça, compreende melhor o que deve aos outros e consequentemente partilha do que tem e do que poupa.

Não precisamos de grandes cogitações para concluir da oportunidade redobrada de Quaresmas sérias. Os discípulos de Jesus Cristo admiram-lhe a plena liberdade sobre si próprio, percorrendo a estreita senda que, nele mesmo, Deus abria ao mundo. Estreita senda, que a sua Ressurreição transformou em viabilidade garantida para quem a queira percorrer, no mesmo Espírito e com a sua graça. Se olharmos em redor, para outras possibilidades que porventura nos apresentem, continuaremos a responder com as palavras de Pedro, apesar de tudo e até apesar de nós: «A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!» (Jo 6, 68).

Irmãos caríssimos, diocesanos do Porto: Acolhamos de coração entregue as palavras de Paulo, no trecho que ouvimos: «Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. […] Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação!».

2.Porque é de acolher que efetivamente se trata. Aquele sentimento pesado e difuso, atrás referido, que tanto desmotiva socialmente, pode igualmente expandir-se na vida eclesial que levamos. Tal não deve acontecer de modo algum, porque os discípulos de Cristo hão de ser, especialmente agora, sinais vivos de esperança certa, nos mais diversos ambientes e setores em que a coexistência decorra. Assim o concluímos por nós, mas sobretudo o ganhamos de Cristo e do que nos oferece.

Leva-nos este ponto a uma consideração maior e mais exigente. Leva-nos ao que propriamente se chama conversão e quase rendição à graça e à justiça de Cristo, que só elas nos recriam e habilitam para o que importa sermos, para Deus e para o mundo.

Algumas décadas de otimismo apressado tentaram-nos a considerar mais “horizontalmente” as coisas, o que acabou por nos desencantar de nós mesmos, como pretendeu desencantar o mundo. Tudo estaria ao nosso alcance, dizia-se, mas nem sempre se atingiram novos patamares de humanidade livre e solidária - e muito pelo contrário, nalguns casos mais gritantes. De facto, temos de nos ver de mais alto para nos abarcarmos a todos.

Ao invés de tal horizontalismo, Jesus, de pés bem assentes na terra que foi sua, apresentou-se inteiramente “vertical”, em si mesmo abrindo tanto a terra ao céu como o céu à terra. Lembremos, por exemplo, como se apresentou segundo o antigo sonho do patriarca Jacob: «Em verdade, em verdade vos digo: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo por meio do Filho do Homem» (Jo 1, 51).

Por meio d’ Ele, e nunca doutro modo. Os discípulos de Cristo, que verdadeiramente o queiram ser, sabem-se resgatados dum imenso peso, que só Ele suportou. Há cativeiros de alma que nem conseguimos esclarecer, quanto mais quebrar… Oiçamos de novo e guardemos melhor as palavras de Paulo: «A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus».

Reparemos que a iniciativa é divina, desvendando-nos o próprio modo de ser e agir de Deus. É Deus Pai que nos oferece em Cristo a reconciliação que por nós não atingiríamos nunca, como a não conseguiríamos agora. É essa a deslumbrante justiça de Deus, como se nos devesse o que gratuitamente nos oferece. Adianta-se no perdão, quase substituindo o ofensor. E tal acontece porque, em Deus, a justiça tem outra raiz, que se chama propriamente “amor”.

O Papa Bento XVI, a quem ficamos devedores de oito anos de luminoso pontificado, escolheu para a sua primeira encíclica o título “Deus é amor”, plenamente acertando com a revelação cristã. Na sua última mensagem quaresmal, diz-nos agora, entre muitas outras coisas oportunas: «O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor […], está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo. Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência de sermos amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus» (Mensagem do Papa para a Quaresma de 2013. Crer na caridade suscita caridade, nº 1).

Retiremos deste trecho duas consequências maiores, a nós referentes, como Igreja de Cristo, e ainda a nós mesmos, como Igreja no mundo e para o mundo, na nossa sociedade e circunstância:
Primeiramente, caríssimos irmãos e condiocesanos, retomemo-nos diante de Deus como permanentes devedores dum resgate que não mereceríamos. É surpreendente deveras que todos os que mais tentaram corresponder ao amor de Deus – de Paulo de Tarso a Francisco de Assis ou a Teresa de Calcutá – sentissem tanto a desproporção absoluta entre o dom de Deus e a capacidade humana de se retribuir inteira… Por nós, não podemos nem queremos considerar-nos outra coisa senão pobres pecadores, constantemente carecidos do perdão de Deus. Seremos até a única comunidade humana que, ao reunir-se, começa por se confessar pecadora, diante de Deus e dos homens, «por pensamentos e palavras, atos e omissões», e insistindo cada um «por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa».

Esta a verdade de que partimos nós, condição indispensável e assumida para acolhermos a verdade maior da misericórdia divina. Juntando uma e outra, continuamos a ser - como já antigamente se dizia - «a santa Igreja dos pecadores». Dos pecadores que assim nos confessamos e da santidade divina que nos é oferecida, pela mediação eclesial que Cristo não dispensa. Como outrora mandou aos discípulos que distribuíssem o pão com que só Ele alimentava o povo, como os mandou perpetuar a eucaristia em sua memória, como lhes confiou o serviço do perdão e da paz… E como nos envia todos a todos, caríssimos irmãos e irmãs, para que chegue a cada um a vida divina que só assim se expande.

Nada sucede por nós, mas porque em nós atua o amor divino, que só “merecemos” porque a ele nos rendemos, sem a mínima presunção da nossa parte. E o próprio Jesus Cristo o esclareceu na conclusiva parábola do fariseu e do cobrador de impostos, quando foram ao templo para orar. O primeiro, mais propriamente para afirmar a sua suposta impecabilidade, ali de pé e gabando-se de cumprir o preceituário completo. O segundo, nem levantava os olhos do chão e só conseguia repetir: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador». Sabemos a conclusão da parábola, como Cristo a tirou: «Este último voltou justificado para casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado» (cf. Lc 18, 9-14).

Mas, se a humildade religiosa é a primeira consequência a reter, a humildade diante dos outros é a segunda e igualmente necessária. Aquele fariseu cheio de si e da sua suposta grandeza, no próprio orgulho com que se apresentava diante de Deus, transportava um profundo desprezo pelos seus semelhantes. Pois assim mesmo dizia: «Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros…». Assim blasfemava ele, mas assim não blasfemaremos nós, atribuindo-nos uma impecabilidade que só a Deus pertence. Como o próprio Jesus o afirmou, para não restarem dúvidas: «Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc 10, 18).
Em suma, caríssimos irmãos: Acolhamos esta Quaresma como oportunidade concreta de libertação de raiz. Por nós, não somos melhores do que outros, mas queremos substituir qualquer auto-convencimento pela conversão sem reservas à misericórdia divina.

3.Só assim ficaremos aptos para servirmos a sociedade que integramos, com disponibilidade oferecida e reforçada. Quem se sabe recuperado pela graça de Cristo, confessa um Deus que não desiste de nenhuma das suas criaturas e mantém constantemente a vontade criadora que subjaz a toda a existência.

Sobretudo por isso, estamos com todos os outros nas inevitáveis fronteiras da justiça, da solidariedade e da paz. É ainda Bento XVI a dizer-nos: «Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele» (Mensagem, nº 2).

Nas nossas comunidades cristãs, certamente, e por elas no espaço em redor. Mas também nas escolas, nos hospitais, nas empresas, na sociedade em geral, estaremos com todos e para todos, com as competências que tivermos ou ganharmos, iguais entre iguais; e como “sal da terra”, que não perde a força que Deus sempre garante, para que tudo alcance melhor gosto e sobretudo não se corrompa e degrade.

Porque é magnífica a declaração mas tremenda a advertência que Jesus Cristo nos faz: «Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens» (Mt 5, 13). Lembremos a advertência, mas apliquemo-nos na declaração. E que aqueles que connosco não desistem de resolver todas as crises, das famílias ao Estado, da economia à sociedade, da escola à cultura, possam confirmar que, ali mesmo onde está um discípulo de Cristo, não há desistência prévia, não há pessimismo paralisante, não há cansaço insuperável. - Ofereçamos esta exercitação quaresmal de crentes como incentivo nacional de esperança!

+ Manuel Clemente
Sé do Porto, Quarta Feira de Cinzas, 13 de fevereiro de 2013

Sexta-feira, Janeiro 04, 2013

Quem defende Deus, defende o homem.

«Não se nasce mulher; fazem-na mulher – On ne naît pas femme, on le devient».
Nestas palavras [de Simone de Beauvoir], manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo «gender - género», é apresentado como nova filosofia da sexualidade.
De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia.
Salta aos olhos a profunda falsidade desta teoria e da revolução antropológica que lhe está subjacente.

O homem contesta o facto de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria.

De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez.

É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada.

Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: «Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto.

Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem.

O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade.

A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo.

Agora existe apenas o homem em abstracto, que em seguida escolhe para si, autonomamente, uma outra coisa para sua natureza. Homem e mulher são contestados como exigência, ditada pela criação, de haver formas da pessoa humana que se completam mutuamente.

Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação.

Mas, em tal caso, também a prole perdeu o lugar que até agora lhe competia, e a dignidade particular que lhe é própria; Bernheim mostra como o filho, de sujeito jurídico que era com direito próprio, passa agora necessariamente a objecto, ao qual se tem direito e que, como objecto de um direito, se pode adquirir.

Onde a liberdade do fazer se torna liberdade de fazer-se a si mesmo, chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser.

Na luta pela família, está em jogo o próprio homem.

E torna-se evidente que, onde Deus é negado, dissolve-se também a dignidade do homem.
Quem defende Deus, defende o homem."

 BentoXVI - Discurso à Cúria Romana

Quinta-feira, Dezembro 27, 2012

Pensamos: Deus, no fundo, não deve existir

Quanto mais rapidamente nos podemos mover, quanto mais eficazes se tornam os meios que nos fazem poupar tempo, tanto menos tempo temos disponível.
 
E Deus? O que diz respeito a Ele nunca parece uma questão urgente. O nosso tempo já está completamente preenchido.

* * *
 
Mas vejamos o caso ainda mais em profundidade. Deus tem verdadeiramente um lugar no nosso pensamento?
A metodologia do nosso pensamento está configurada de modo que, no fundo, Ele não deve existir.
Mesmo quando parece bater à porta do nosso pensamento, temos de arranjar qualquer raciocínio para O afastar; o pensamento, para ser considerado «sério», deve ser configurado de modo que a «hipótese Deus» se torne supérflua.
 
E também nos nossos sentimentos e vontade não há espaço para Ele. Queremo-nos a nós mesmos, queremos as coisas que se conseguem tocar, a felicidade que se pode experimentar, o sucesso dos nossos projectos pessoais e das nossas intenções.

Estamos completamente «cheios» de nós mesmos, de tal modo que não resta qualquer espaço para Deus.
 
E por isso não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros.

Sábado, Outubro 20, 2012

Dia Mundial das Missões

Outubro 20, 2012. (Romereports.com) Viajam milhares de quilómetros para longe das suas famílias,
vivem por vezes em países onde a violência acontece, e no entanto fazem-no com plena consciência.
Dia a dia os missionários enfrentam esses desafios para promover a fé.

O Dia Mundial das Missões celebra-se domingo, 21 de Outubro. Com este poderoso video, as Obras Missionárias Pontifícias agradecem aos missionários de todo o mundo o seu trabalho.
Também convida os cristãos a apoiá-los com as suas orações e com os seus donativos.